As alterações da voz e da fala acometem de 75% a 92% dos parkinsonianos em alguma fase da doença. Essas alterações resultam em prejuízo da comunicação oral e afeta sua clareza e compreensão, costuma limitar o convívio familiar, social ou profissional e repercute diretamente na qualidade de vida, bem-estar, auto-estima e esperança.
Ao longo da evolução, a associação dos sinais e dos sintomas motores da doença de Parkinson (DP) pode desencadear alterações na voz e na fala. O conjunto dessas alterações é denominado disartria e ocorre como resultado de modificações nos mecanismos envolvidos na comunicação oral, como fonação, respiração, ressonância e articulação.
A fonação diz respeito à produção da voz, cuja emissão tem início no cérebro, que envia suprimento nervoso para a laringe, o órgão que produz a voz. A laringe tem a forma de um tubo e localiza-se na região anterior do pescoço. No interior desse tubo estão as pregas vocais, que vibram com a passagem do ar advindo dos pulmões. Os sons produzidos na laringe são modificados pela ação da faringe, da boca, da língua e do nariz, o que permite articular palavras e diversos outros sons.
As alterações da voz presentes na DP são observadas através da voz rouca, soprosa, trêmula e monótona e também pela diminuição na capacidade de produzir sons graves e agudos e em volume audível.
O suporte respiratório é de grande importância para o ato da fonação. A redução da eficiência respiratória em pacientes com a DP ocorre devido à rigidez da musculatura envolvida na respiração, comprometendo os movimentos e a regularidade dos ciclos respiratórios. Tal fenômeno provoca dificuldade na inspiração, e desse modo, pouco ar é enviado aos pulmões exigindo um maior número de inspirações para falar. As alterações respiratórias comprometem a qualidade e o volume da voz e são responsáveis pelas queixas de emprego desproporcional de força, cansaço e falta de ar ao falar.
O sistema de ressonância vocal é constituído pelos pulmões, laringe, faringe, cavidade da boca, cavidade nasal e os seios paranasais, cuja função é amplificar e projetar os sons da fala. Na DP, a alteração é relacionada à diminuição da ressonância oral em conseqüência da diminuição na abertura da boca.
A articulação dos sons da fala refere-se ao processo no qual as estruturas orais (lábios, língua, dentes, bochechas, palato e mandíbula) interagem e modelam a produção dos sons da fala. Na DP, o controle da produção desses sons geralmente encontra-se prejudicado e se caracteriza pela diminuição na abertura da boca, menor definição dos sons da fala, alterações na fluência e aumento ou redução da velocidade da fala.
O diagnóstico das alterações da voz e da fala - A inspeção e a análise das estruturas da laringe dos pacientes com alterações da voz têm por objetivo o diagnóstico médico da alteração da voz e geralmente são realizadas pelo otorrinolaringologista. Posteriormente, para complementar o diagnóstico, o procedimento médico deve ser correlacionado com as análises perceptivo-auditiva e acústica da voz, realizadas pelo fonoaudiólogo especialista.
Essa análise é realizada a partir da observação das estruturas envolvidas e de amostras da voz e fala dos pacientes. A avaliação acústica é realizada por meio de microcomputador, programas específicos e medidor de nível de pressão sonora, que mensuram objetivamente o comportamento da voz e da fala.
O tratamento fonoaudiológico - Apesar de inúmeras pesquisas e avanços tecnológicos, o tratamento da DP é sintomático e visa à redução das alterações motoras e, conseqüentemente, a melhora da qualidade de vida dos pacientes. Os estudos sobre o efeito do tratamento medicamentoso e cirúrgico na voz e na fala dos pacientes com DP mostram que alterações nessas funções não melhoram significativamente, quando comparados com os efeitos positivos nos demais prejuízos da doença. Felizmente, essas alterações costumam responder de forma satisfatória à reabilitação fonoaudiológica.
O tratamento fonoaudiológico mais indicado para as alterações fonoarticulatórias na DP é o método Lee Silverman de Tratamento Vocal (LSTV®), que promove o aumento do volume da voz e melhorias em outros aspectos da fala, possibilitando a comunicação oral eficiente e satisfatória. O LSTV® é aplicado de modo intensivo, constituído por 16 sessões distribuídas em um mês, realizadas quatro vezes por semana.
O método foi desenvolvido para aplicação individual, contudo, em nosso meio, nas experiências clínicas fundamentadas por pesquisas científicas, evidenciaram-se modificações positivas ocorridas após o tratamento pelo LSTV® em grupo e também com número deduzido de sessões.
A reabilitação fonoaudiológica envolve procedimentos integrados de orientação, psicodinâmica e treinamento a fim de desenvolver melhores possibilidades de comunicação oral reduzindo as dificuldades e adequando a qualidade da voz e da fala às necessidades dos pacientes. A fonoterapia intervém e prepara os parkinsonianos através de situações funcionais vivenciadas no dia a dia, aprimora suas habilidades e estimula outras, sempre respeitando suas potencialidades e funcionalidades.
Dra Alice Estevo Dias
Fonoaudióloga colaboradora do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital Nove de Julho