A dor tem sido objeto de estudos científicos no mundo todo, tornando-se um constante desafio...
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Segundo a Associação Internacional que trata sobre o estudo da dor (IASP, 1979), dor é “uma experiência sensorial e emocional desprazerosa associada com real ou potencial lesão de tecido ou descrita em termos de tal lesão”.

Sabemos que a dor aguda tem a importante função de proteger e alertar o indivíduo contra enfermidades ou lesões. Sem este sinal doloroso ficaríamos expostos a graves doenças e até à morte.

No entanto, no caso das dores crônicas, que se prolongam por meses ou anos, a dor perde a função de alerta, passando a causar sensação de sofrimento. Assim, por estarem associadas a medos, preocupações e angústias, as dores crônicas prejudicam as atividades pessoais, sociais e profissionais do indivíduo, tornando-se a causa e o efeito de sofrimento físico e psíquico, com diversos graus de gravidade e provocando um grande impacto sobre a vida da pessoa, desencadeando alterações no sono, no apetite e no desejo sexual.

Sigmund Freud, em 1914, salientou que “uma pessoa atormentada por dor e mal estar orgânico deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, na medida em que não dizem respeito a seu sofrimento. Uma observação mais detida nos ensina que ela também retira o interesse libidinal de seus objetos amorosos: enquanto sofre, deixa de amar”.

Como exemplo dos transtornos e do sofrimento causados pela dor, foram selecionadas a seguir algumas frases ditas por pacientes atendidos em psicoterapia, as quais traduzem um pouco a relação dos pacientes com a dor sentida:

1 - Paciente com câncer de colo uterino: “Não tenho medo da morte, tenho medo de sentir dor. Será que é preciso sofrer tanto assim para morrer?”;
2 - Paciente diabético com amputação dos dedos dos pés: “Os médicos dizem que eu devo tentar ficar de pé me apoiando, mas as pernas estão muito fracas, eu não vou conseguir, já senti dor demais, agora que me sinto aliviado, tenho medo de arriscar”;
3 - Paciente com câncer de intestino com colostomia: “Eu só volto para casa quando estiver sem dor. Aqui não tem perigo, eu sei que se a dor começar é só tocar a campainha”;
4 - Paciente com fibromialgia: “A dor é meu termômetro. Mas foi através dela que eu pude compreender muitas coisas importantes da minha vida”.

É importante ressaltar que cada pessoa dá um significado diferente às situações que produzem dor e tal significado influencia a intensidade da dor percebida, já que a maneira como o indivíduo vai lidar com a sensação dolorosa está relacionada com o seu repertório individual, sendo a partir do período da infância que se “aprende” a enfrentar a dor. Esse processo de aprendizagem é determinante para a estrutura psíquica do ser humano, motivando, ainda, a maneira como as dificuldades e vicissitudes da vida serão sentidas e percebidas.

De toda forma, para quem está sentindo, a dor incomoda e muitas vezes é preciso ter de se lidar com o fato de as pessoas não acreditarem nem compreenderem que essa dor é “real”. Assim, a pessoa sente que seus lamentos não são levados a sério e tem a necessidade de “provar” a própria dor.

Verificamos, ainda, que duas situações emocionais ampliam a dor: a ansiedade e a depressão, de modo que pacientes ansiosos e depressivos sentem mais dor.

A ansiedade acompanha e torna as dores agudas mais intensas, enquanto a depressão acompanha com mais freqüência as dores crônicas, ainda que ambas possam coexistir.

Observamos em pacientes com dor crônica que a depressão aumenta o limiar de dor, diminuindo a capacidade de controlar suas vidas e tornando-os mais dependentes.

Portanto, a dor crônica interfere nas atividades de vida diária do indivíduo, pois o corpo e a mente não representam a dualidade do ser, mas formam, na verdade, a sua unidade, de maneira que a dor física e a dor psíquica estão associadas por definição.

Nesse sentido, a psicoterapia facilita o exercício da expressão mais harmoniosa e espontânea dos pensamentos e dos sentimentos reprimidos, contribuindo para o fortalecimento do ego do ser humano e facilitando o enfrentamento das dores e adversidades de sua vida cotidiana.

Anita Lopes
Especialista em Psicoterapia Psicanalista (Sedes Sapientiae) e em Psicologia Hospitalar (HCFMUSP). Psicóloga do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital Nove de Julho.

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